Mostrando postagens com marcador Inquisição. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Inquisição. Mostrar todas as postagens

O Tempo das Fogueiras



Após a Igreja Católica ter sido formada e haver adquirido poder, os costumes dos Pagãos foram vistos como uma ameaça ao sistema  religioso recentemente estabelecido e a adoração dos Deuses da religião Antiga, foi banida. Os antigos festivais foram superados pelos novos feriados religiosos da Igreja, e os antigos Deuses da Natureza e da Fertilidade, transformados em terríveis e maléficos demônios e diabos. A igreja patriarcal chegou até a transformar várias Deusas pagãs em diabos masculinos e maus, não somente para corromper deidades da Religião Antiga, como, também para apagar o fato de o aspecto feminino ter sido objeto de adoração.

No ano de 1233, o Papa Gregório IX, instituiu o Tribunal Católico Romano, conhecido como Inquisição, numa tentativa de terminar com a heresia. Em 1320, a Igreja (a pedido do Papa João XXIII) declarou oficialmente que a Bruxaria, e a Antiga Religião dos Pagãos constituíam um movimento e uma "ameaça hostil" ao Cristianismo. Os bruxos tornaram-se heréticos e a perseguição contra todos os Pagãos, espalhou-se como fogo selvagem por toda a Europa. É interessante notar que, antes de uma pessoa ser considerada herética, ela tem, primeiro, que ser cristã, e os Pagãos nunca foram cristãos. Eles sempre foram Pagãos.

Os Bruxos (junto com um número incalculável de homens, mulheres e crianças inocentes, que não eram Bruxos), foram perseguidos, brutalmente torturados, por vezes violados sexualmente ou molestados, e, então, executados pelas autoridades sádicas, sedentas de sangue da Igreja, que ensinavam que seu Deus era um Deus de amor e compaixão. A Bruxaria na Inglaterra tornou-se uma ofensa ilegal no ano de 1541, e, em 1604, foi adotada uma Lei que decretou a pena capital para os Bruxos e Pagãos. Quarenta anos mais tarde, as 13 colônias na América do Norte, decretaram também a pena de morte para o "crime de bruxaria". No final do século XVII, os seguidores que permaneciam leais à Religião Antiga, viviam escondidos, e a Bruxaria tornou-se uma Religião subterrânea secreta após uma estimativa de um milhão de pessoas ter sido levados à morte na Europa e mais de trinta condenados em Salem, Massachusetts, em nome do cristianismo.

Embora os infames julgamentos das Bruxas de Salem, em 1692, sejam os mais conhecidos e bem documentados na história dos Estados Unidos da América, o primeiro enforcamento de um Bruxo na Nova Inglaterra realmente aconteceu em Connecticut, em 1647, 45 anos antes que a história contra a Bruxaria se abatesse na Vila de Salem. Ocorreram outras execuções pré-Salem, em Providence, Rhode Island, em 1622.

O método mais popular de extermínio dos Bruxos na Nova Inglaterra era a forca. Na Europa,, a fogueira. Outros métodos incluíam a prensagem até a morte, o afogamento, a decapitação e o esquartejamento.

Durante 260 anos, após a última execução de um Bruxo, os seguidores da Religião Antiga mantiveram suas práticas pagãs ocultas nas sombras do segredo e, somente após as Leis contra a Bruxaria terem sido finalmente revogadas na Inglaterra, foi que os Bruxos e Pagãos, em 1951, oficialmente saíram do quarto das vassouras.

Texto do Livro "Wicca, a feitiçaria moderna" de Gerína Dunwich.

Reflexões de uma condenada à fogueira


Era inicio de primavera, o clima perfeito para uma tarde romântica. Correr nos campos tangendo corvos e pássaros, ou quem sabe cavalgar livre sentindo o vento frio no rosto, chegar a Aldeia de Kalppe atrás das montanhas, visitar Duanna, falar de magias de amor e de celebrações.
Mas isso é impossível! Estou presa neste calabouço há duas luas e nem sei porquê. Ouvi comentários que seria condenada a fogueira por ser uma bruxa. Mas por ser uma bruxa serei levada a morte tão cedo e de forma tão violenta? Afinal tenho só 20 anos, me sinto bela, tenho tantos planos para o futuro... morrer sem conhecer a montanha dourada que a nona tanto falava. E os filhos? Também não os terei... Como podem matar uma mulher que nem cumpriu ainda a sua sagrada missão no mundo que é a de parir?

Seria uma boa mãe, lhes ensinaria a arar a terra com os devidos cuidados para não ferir as entranhas da grande Mãe. Depois lhes ajudaria a cuidar da plantação e a colher.
Quando o trigo fosse debulhado, lhes ensinaria a fazer pão. Ah! O pão! Alimento sagrado dos Deuses... Seria maravilhoso correr nos campos com minhas crianças, conduzir os rebanhos montanha acima e na hora do ocaso parar. Observar o Deus Sol se recolher e a Grande Deusa Lua chegar. Orar por todos os filhos do mundo e pedir abundância, pediria a Deusa Lua que iluminasse meus irmãos e promovesse a fartura na próxima colheita. E finalmente chegaria o Samhain. Dançaríamos em volta das fogueiras, celebrando o dia em que nossas ancestrais passam pelos portais da transformação para nos envolver de amor e luz.

Não. Nada disso acontecerá! Não vou mais poder acender lanternas em abóboras nos caminhos do bosque para sinalizar o local das nossas celebrações. Não vou tomar vinho agradecendo ao Deus Baco pela alegria de viver, não vou mais tear meu melhor vestido para as danças sagradas no Festival de Rhiannon. Meu Caldeirão, onde preparo meus chás que curam os males dos corpos, será execrado e esquecido em livros de terror para as criancinhas.

Vão me mandar para a terra do verão sem sequer me ouvir, sem que eu fale dos meus sonhos de inverno. Sem que eu possa cantar minhas canções de amor e fé pelas belezas da Grande Mãe, a natureza. Me obrigam a partir sem me doar a um parceiro de trilha na terra, rolar na relva sem sentir a beleza da entrega dos corpos ao fundir masculino e feminino no coito sagrado da procriação, com as bênçãos de Belenos.

E antes de acontecer o inevitável, o sol vai iluminar toda a terra sagrada e eu serei só luz, meu corpo nada sentirá, pois estarei sob a proteção da Deusa Mãe.

No inverno estarei presente no fogo das lareiras dos meus inquisidores lhes aquecendo os corpos e os corações. No verão o sol abrasará seus dias e seus pântanos, na primavera voltarei na luz refletida em cada hortênsia. No outono, estarei nas réstias de luz por entre nuvens. Serei plena e crescerei. Retornarei quando o homem determinar o fim dos tempos. Quando o homem for livre e a justiça real. Quando os direitos humanos forem respeitados e a fé restaurada. Retornarei quando os homens cansados de julgarem-se a si mesmos e de se auto condenarem, revoguem as leis da Grande Mãe, sem anular o poder sagrado da maternidade, e não a camuflem com lendas de homens que parem pelas costelas. Retornarei ao grande útero da mãe terra, quando esta despertar nas almas e nos corações das mulheres livres de preconceitos e “pecados”. Voltarei quando os homens respeitarem as mulheres que deixam seus leitos no silêncio da noite sob o frio do inverno para ajudar a outra mulher dar a luz a mais um ser humano.

Voltarei quando uma mulher tiver o supremo direito de subir em uma tribuna e reivindicar seus direitos, sejam de que ordem for como nossas ancestrais o faziam. Voltarei quando não mais for preciso esconder meus sagrados objetos de magia ou queimar meu livro de Capa preta. Voltarei quando puder andar livremente pelos caminhos que eu mesma decidir trilhar. Voltarei quando eu e minhas irmãs de crença pudermos dançar e cantar em praças públicas, louvando nossos Deuses sem sermos apedrejadas. Haverá essa época verdadeiramente?




As horas passam lentamente nesta manhã. Ouço ao longe os tambores dos inquisidores... Quem teria me entregado aos senhores da “Santa Inquisição”?
Seria aquela mulher que é triste e amarga porque a lepra lhe putrifica as carnes, por inveja da minha juventude e da minha pele viçosa? Ou seria aquele velho sujo do provedor inquiridor que queria meus carinhos e vivia a me perseguir até eu lhe chamar de porco imundo?

Seria aquela nova vizinha do rancho do vale? Ela estava sempre falando da minha plantação de hortênsias, gostaria de ter uma igual, se assim foi, ela agora será a sua proprietária, pois me condenou, pelas leis da Inquisição, quem entrega uma bruxa aos inquisidores recebe seus bens como pagamento, depois é claro, de tirar a parte da igreja. Mas isso já não faz diferença. São pobres de alma e de sentimentos, cegos pela ânsia do poder. Do Ter, de possuir bens materiais, esquecem do quanto é efêmera a alegria das coisas físicas. Esquecem da beleza do caminho simples dos Deuses.

Da transparência da água, da dança do fogo, do poder do vento e da sabedoria da terra. Esquecem da clemência e da lucidez dos nossos Deuses, e se deixam aprisionar por um único Deus poderoso e vingativo. Imposto por homens que usam seu nome para espalhar dor e sofrimento. Um Deus que só vê com bons olhos homens que lhe seguem com rigor, que por ignorância nada questionam, simplesmente se deixam escravizar por este Deus forjado para aprisionar os filhos da Grande Mãe a dogmas que eles mesmos criaram.

Roubaram nossos símbolos sagrados e os transformaram em seres malévolos, demônios e diabos, entidades essas que jamais ouvimos falar. Sabemos que o mal existe, tanto quanto o bem. São as energias naturais opostas no universo. Podemos fazer muito mal aos nossos irmãos e as coisas da grande mãe se não soubermos usar essas energias com altruísmo e sabedoria, precisamos ter a real consciência do quanto é importante este discernimento.

O que importa agora é que sou impotente para transformar essa moléstia instalada nas nossas vidas, mas voltarei minha essência para reverter esse poder imbecil e inominável. Voltarei com as bênçãos de Gaia, para promover o despertar da Deusa Mãe de forma intensa. Natural e interna nas almas e nos corações dos homens. Ela será tão natural e forte que estará imaculada na própria vida da mulher, poderá ser conhecida ou não. Para ser conhecida, a mulher terá que ir buscá-la dentro do próprio coração, nas entranhas, sem depender de ninguém para mostrá-la. Se nunca a encontrar será porque nunca esteve suficientemente preparada para tamanha responsabilidade.

Voltarei quando o respeito às leis que regem o universo sejam universalmente conhecidas, que os homens tenham certeza seja por que meios forem, que nós somos parte, mesmo que infinitamente pequenos, de um grande sistema que gera vida unificada. Que somos todos iguais feitos do mesmo pó, retornamos a ele e dele partimos para completar o grande círculo que chamamos de tempo.

Ouço passos, deve ter chegado o momento de me conduzirem ao patíbulo. Desnudarão as minhas vestes e a minha dignidade humana. Anotarão meu nome para engrossar a lista dos que ousarem nascer e viver livres, dos que amaram e viveram intensamente seus amores, dos que não se amedrontaram pelos conflitos naturais da vida, pelos que não se intimidaram pelas causas da Deusa Mãe, a natureza.

Vão denegrir a minha imagem e a minha fé. Vão reverter meus princípios e meus ideais. Vão corromper minha história. Vão me condenar mais uma vez aos mistérios de terror. Vão envolver meus descendentes na ignorância ao longo de dois mil anos. Transformarão as minhas preces em risos sarcásticos e gritos tenebrosos. Chamarão nossos ungüentos, nossos chás e ervas de recursos primitivos. Esquecerão o quanto nossas ancestrais se sacrificaram para colher e descobrir ervas que curam e alimentam.

Desenvolverão técnicas que chamarão de ciências, em cima dos nossos parcos recursos primitivos, e jamais os reconhecerão.

Para se tornarem populares, associarão nossos Deuses aos seus Deuses, e alterarão nosso calendário para que os pagãos celebrem seus Deuses, pensando estar celebrando nossos Deuses.

Ridicularizarão o nosso circuito de energia com as fases da Deusa mãe lua. Darão outros nomes ao que chamamos de rio interno da Deusa que promove a vida. Espalharão a idéia de que é sujo e nojento o nosso sangue sagrado de mulher.
Farão com que os incautos acreditem que adorar a Deusa cheia e plena os tornará loucos. Criarão argumentos pobres e imbecis para justificar os fenômenos naturais, o que também chamarão de ciências.



As mulheres serão condicionadas a serem escravas dos homens. Até mesmo do seu próprio homem, aquele a quem escolheu para rolar na relva.
Não haverá mais mulheres Sacerdotisas, pois o poder, até o dos deuses estará exclusivamente na mão dos homens. Será o período onde até as mulheres, que conhecem a dor do parir, dependerá do macho para sobreviver. Muitas delas farão desta situação condição única de sobrevivência. Situação essa, que aliada à condição material e emocional, se tornarão também escravas por um longo período no tempo.

Será um período tão nefasto, que as mulheres usarão seu corpo como arma, não com liberdade de amar na relva sob as bênçãos de Belenos, mas rolar nos leitos para sobreviver. E o que será pior, sem se dar conta da perda do seu poder do feminino. Será o período de alienação total da mulher, até que a Deusa mãe seja resgatada e instalada definitivamente nas almas e nos corações.

Então, nós Bruxas, estaremos de volta. Resgatando a pureza de ser fêmea, mãe, parceira e companheira do nosso homem. Escolhendo e sendo escolhida. Desenvolvendo nossas habilidades profissionais. Independente de raça, religião ou cor, seremos mulheres simplesmente, a contraparte do homem. Diferentes, porém harmonizados. Opostos, porém parceiros.
Me conduzem ao patíbulo... é chegado o momento da transformação!

Estarei de volta na era de Aquários!

Texto de:
Graça Lúcia Azevedo / Senhora Telucama.
Suma Sacerdotisa do Templo Casa Telucama

"Truth in our hearts, Strength in our arms and fulfillment in our tongues."
(Verdade em nossos corações, Força em nossos braços e Totalização em nossas línguas).