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O Mito da Descida da Deusa


Dea, nossa Dama e Deusa, soluciona todos os mistérios, até mesmo o mistério da Morte. Assim sendo, ela partiu rumo ao Submundo em sua nau, pelo Sagrado Rio da descida. A seguir ela se deparou com o primeiro dos sete portais do Submundo. E seu Guardião a desafiou, exigindo uma de suas vestes para que passasse, pois nada pode ser dado sem que algo seja oferecido em troca. 

E a cada um dos portais, a Deusa teve de pagar o preço da passagem, pois os Guardiães assim lhe diziam: 
"Despe-te de tuas vestes, e livra-te de tuas jóias, pois não há nada que possas trazer a nossos domínios." 

Assim, Dea cedeu suas jóias e sua vestimenta aos Guardiães, e foi conduzida, como um ser vivo que busca ingresso no Reino dos Mortos e dos Poderosos. 

No primeiro portal ela deixou seu cetro, no segundo sua coroa, no terceiro seu colar, no quarto seu anel, no quinto sua guirlanda, no sexto suas sandálias, e no sétimo seu vestido. Dea permaneceu nua e foi apresentada perante Dis, e tal era sua beleza que ele próprio se ajoelhou quando ela entrou.

Depondo sua espada e sua coroa aos pés dela, disse: 
"Abençoados são teus pés, pois te trouxeram por esta senda." 

Ele então ergueu-se e disse a Dea: 
"Fica comigo, eu imploro, e deixa teu coração ser por mim tocado." 

E Dea respondeu a Dis: 
"Mas eu não te amo, pois por que fazes com que todas as coisas que amo e com as quais me delicio venham a fenecer e morrer?" 

"Minha Senhora", respondeu Dis, "é contra a idade e o destino que falas. Não tenho poder, pois a idade faz com que tudo pereça, mas quando os homens morrem ao fim de seu tempo eu lhes dou repouso, paz e força. Por algum tempo eles habitam com a Lua, e com os espíritos da Lua; então podem retornar ao reino dos vivos. Mas és tão adorável e te peço para que não retornes, mas que vivas cá comigo". 

Ao que Ela respondeu: 
"Não, pois não te amo." 

Então Dis disse: 
"Se te recusas a me abraçar, deves prostrar-te perante o açoite das Morte."

Respondeu a Deusa:
 "Se assim é, assim seja, tanto melhor!" 

Dea então ajoelhou-se em submissão perante a mão da Morte, e esta açoitou-a tão levemente que ela gritou: 
"Reconheço tua dor, a dor do amor." 

Dis ergueu-a e disse: 
"És abençoada, minha Rainha e minha Dama." 

A seguir ele lhe deu cinco beijos de iniciação, dizendo: 
"Somente assim podes ambicionar sabedoria e prazer." 

E ele ensinou-lhe todos os seus mistérios, e lhe deu o colar que é o círculo do renascimento. E Ela lhe transmitiu todos os seus mistérios, do cálice sagrado que é o caldeirão do renascimento. Eles se amaram e se uniram um ao outro, e por um período Dea viveu nos domínios de Dis. 

Pois três são os mistérios na vida de um Homem: 
Sexo, Nascimento e Morte (e o amor controla a todos). 
Para atingir o Amor, devemos encontrar, reconhecer, lembrar e amá-los novamente.

Mas para que possamos renascer devemos morrer e ser preparados para um novo corpo. E para morrer devemos nascer, mas sem amor não podemos nascer entre os nossos semelhantes. 

Mas nossa Deusa tende a favorecer o amor, o prazer e a alegria. Ela protege e cuida de suas crianças ocultas nesta vida e na próxima. 

Na Morte Ela revela o caminho que leva à comunhão com Ela, e na vida ensina a magia dos mistérios do Círculo (existente entre os mundos dos homens e dos Deuses). 

Fonte: Tradição Aridiana (Raven Grimassi) 

O mago Merlin



Merlin era um título dado ao sacerdote mais graduado na religião antiga. O Merlin era como se fosse o representante masculino da Deusa, ele, juntamente com a Sacerdotisa de Avalon, formavam o elo entre a magia e os humanos.

O Merlin, no início da lenda, é o Taliesin (aquele velho de barba branca, como ficou imortalizado na mente das pessoas), Taliesin foi o Merlin da Bretanha durante muitos anos, e teve filhas importantes no enredo da lenda: Igraine (a mãe de Arthur), Morgause (a mulher que criou Mordred, filho de Arthur com Morgana) e Niniane (a Sacerdotisa de Avalon que substituiu Viviane). Taliesin foi também o articulador e conselheiro do reino de Ambrósio e Uther Pendragon. 

Já no reino de Arthur ele participou do início mas pela sua idade foi substituído por Kevin o Bardo. Kevin era um homem com problemas físicos, foi Vítima de um incêndio na sua infância e com isso teve problemas para se locomover, ficando corcunda e manco, e com problemas nas mãos que não impediram de fazer valer do seu maior dom, a Harpa.

A bela voz também o acompanhava, mas Kevin era o melhor harpista de todo o reino de Camelot e empunhava a sua amada (a sua harpa) de uma forma peculiar, pois não tinha forças para erguê-la e por isso abaixava-se junto ao instrumento como que reverenciando-o por todos os belos sons que ele emitia. Kevin era calmo e muito lúcido, e por vezes se mostrou até pouco radical quanto a sua religião para não ferir os propósitos maiores que era manter a religião pagã viva e não torná-la a mais importante da Bretanha. 

Nesse período, os antigos já tinham a certeza de que a sua religião não era mais a dominante na região, mas que apenas continuaria viva e deveria se respeitada assim como a católica. O papel do Merlin na trama a partir daí não era o de fazer magia e feitiços, mas sim de mostrar ao seu povo que ele continuava junto ao rei e com isso assegurar a paz entre o reino e os povos antigos, os tornando aliados incontestáveis. O Merlin era um título e não um homem, é bom que isso fique muito bem claro.

Os primeiros registros existentes onde consta Merlin (Armes Prydein, Y Gododdin) são do começo do século 10, nele consta que Merlin era um mero profeta, mas o papel dele foi evoluindo gradualmente como mago, profeta e conselheiro, ativo em todas as fases da administração do reinado do Rei Arthur.
Ele foi aparentemente chamado ao nascer com o nome de Emrys num local chamado Caer-Fyrddin (Carmarthen). Só depois ele tornou-se conhecido como Merlin, uma versão latinizada da palavra gaulesa, Myrddin.

Merlin era o filho bastardo da Princesa Real de Dyfed. Porém, o Rei, pai da princesa, Meurig ap Maredydd ap Rhain, não é encontrado nas genealogias tradicionais deste reino e provavelmente era um sub-rei da região que limita Ceredigion. O pai de Merlin, é dito, era um anjo que tinha visitado a Princesa Real e tinha a deixado com a criança. Os inimigos de Merlin diziam que o pai dele era um incubus, um espírito mau que tem relacionamento com mulheres enquanto dorme. 

As pessoas suspeitavam que a criança "diabólica" (Merlin) veio para ser um contra peso à boa influência que Jesus Cristo teve na terra. Merlin, felizmente, foi batizado cedo em vida, é contado que este evento negou o mal na natureza dele, mas os poderes do lado esquerdo ficaram intactos nele. A história original foi inventada para salvar a mãe dele do escândalo que teria acontecido presumivelmente a ligação dela com Morfyn Frych (o Sardento), Príncipe secundário da Casa de Coel, ato de conhecimento público.

A lenda nos conta que a retirada romana da Inglaterra e a usurpação do trono dos herdeiros legítimos, fez com que Vortigern fugisse da saxônia e fosse para Snowdonia, em Gales, na esperanças de construir uma fortaleza em uma montanha em Dinas Emrys onde ele poderia estar seguro. Infelizmente, a construção vivia desmoronando e os feiticeiros da casa de Vortigern lhe falaram que um sacrifício de uma criança órfã resolveria o problema. Uma pequena dificuldade foi isto, pois aquelas tais crianças eram bastante difíceis de serem encontradas. Felizmente para a fortaleza de Vortigern, Merlin era conhecido por não ter nenhum pai humano e o disponibilizaram.

Antes que o sacrifício pudesse acontecer, Merlin usou os grandes poderes visionários dele e atribuiu o problema estrutural a uma piscina subterrânea no qual viveu um dragão vermelho e um dragão branco. O significado disto, de acordo com Merlin, era que o dragão vermelho representou os Bretões, e o dragão branco, os Saxões. 

Os dragões lutaram, dragão branco levou a melhor, no princípio, entretanto o dragão vermelho empurrou o branco para trás. O significado estava claro. Merlin profetizou que Vortigern seria morto e o trono seria tomado por Ambrosius Aurelianus, depois Uther, depois o grande líder, Arthur. Caberia a ele empurrar os Saxões para trás.



De acordo com a profecia, Vortigern foi morto e Ambrosius tomou o trono. Depois, Merlin parece ter herdado o pequeno reino do avô dele, mas abandonou as terras dele em favor da vida mais misteriosa para a qual ele se tornou tão bem conhecido (a vida druídica). Depois que 460 nobres britânicos foram massacrados na conferência de paz, como resultado do artifício saxônio, Ambrosius consultou Merlin sobre erguer um marco comemorativo a eles. 

Merlin, junto com Uther, levou uma expedição para a Irlanda para obter as pedras do Chorea Gigantum, o Anel do Gigante. Merlin, pelo uso dos poderes extraordinários dele, devolveu as pedras para um local, um pouco a ocidente de Amesbury, e os reergueu ao redor da sepultura da massa dos nobres britânicos. Nós chamamos este lugar Stonehenge.

Após a sua morte, Ambrosius teve como sucessor o seu irmão, Uther, quem, durante a perseguição dele a Gorlois, conheceu a esposa irresistível de Gorlois, Igraine (Ygerna ou Eigr em alguns textos). Uther voltou para as terras em Cornwall, onde foi pedir para Merlin ajudá-lo a possuir Igraine, e para Merlin ajudá-lo, Uther teve que fazer um trato com Merlin de que a criança que nascesse da união de Uther com Igraine fosse dada a Merlin para ele se torna o tutor da criança. Uther aceitou e foi ajudado por Merlin que o transformou na imagem de Gorlois. 

Uther entrou no castelo de Gorlois e conseguiu enganar Igraine a pensar que ele era o marido dela, e engravidou-a, concebendo ela uma criança, Arthur. Gorlois, no entanto não sabendo no que iria acontecer, saiu para encontrar-se com Uther no combate, mas ao invés, foi morto pelas tropas de Uther, enquanto Uther se passava por Gorlois.

Depois do nascimento de Arthur, Merlin se tornou o tutor do jovem menino, enquanto ele crescia com o seu pai adotivo, Senhor Ector (pseudônimo Cynyr Ceinfarfog). No momento definindo da carreira de Arthur, Merlin organizou uma competição da espada-na-pedra (a espada era Caliburnius e não a Excalibur, Excalibur veio após Arthur quebrar Caliburnius) pela qual o rapaz se tornou o rei. 

Depois, o mago conheceu a mística Dama do Lago na Fonte de Barenton (na Bretanha) e a persuadiu a presentear o Rei com a espada mágica, Excalibur. Nos romances, Merlin foi o criador da Távola Redonda, e esta sempre ajudando e dirigindo os eventos do rei e do reino Camelot.

Ele é pintado por Geoffrey de Monmouth, ao término da vida de Arthur, acompanhando Arthur ferido para a Ilha de Avalon para a curar das feridas dele.
Outros contam como tendo se apaixonado profundamente por Morgana, a meia irmã de Arthur, e ele concordou em lhe ensinar todos seus poderes místicos. Ela ficou tão poderosa que as habilidades mágicas dela "excederam" às de Merlin. 

Determinou que não seria escravizada por ele, e prendeu-o em um calabouço, uma caverna semelhantemente a uma prisão. Assim a ausência dele na Batalha de Camlann era no final das contas responsável pelo falecimento de Arthur.

É dito que a prisão e/ou o local onde ele está enterrado está embaixo do Montículo de Merlin na Faculdade de Marlborough em Marlborough (Wiltshire), a Drumelzier em Tweeddale (a Escócia), Bryn Myrddin (a Colina de Merlin) perto de Carmarthen (Gales), Le de Tombeau Merlin (a Tumba de Merlin) perto de Paimpont (Brittany) e Ynys Enlli (Ilha de Bardsey) fora a Península de Lleyn (Gales).

Esta é a Lenda de Merlin mais conhecida, tendo outras que diziam que ele era um louco que tinha o dom de prever as coisas que iriam acontecer e que vivia nas florestas como um selvagem. Sendo assim Merlin é um dos seres mais enigmáticos que existiu, onde até hoje ninguém sabe se ele existiu mesmo ou se é apenas uma Lenda, o que se sabe são apenas fragmentos sobre ele, e histórias confusas, na qual não se consegue definir a sua identidade.

Tendo momentos de total lucidez como um sábio (como o de aconselhar Arthur como reinar em perfeita harmonia e a de falar com os elementais) e outras como a de uma pessoa que deixou-se ser enganado pelo sentimento deixando de lado a razão (como o de ter se apaixonado por Morgana e ensinado a ela a sua arte). Isto faz com que ele seja tão enigmático e carismático ao mesmo tempo, onde até hoje quando se fala logo em mago, vem na cabeça Merlin.


Fonte: site: http://www.asbrumasdeavalon.hpg.com.br do link "O Mago Merlin".

Glastonbury – A Lendária Avalon


Elevando-se acima das planícies de Somerset Levels, Glastonbury Tor, em cujo cimo se ergue a torre de uma igreja em ruínas, constitui um marco inigualável de um dos lugares mais misteriosos da Inglaterra. E isto porque Glastonbury, local de uma primitiva povoação cristã, está imersa em abundante riqueza de tradições e lendas, de mito e romances. 

Esta pequena e animada povoação atrai visitantes de todos os gêneros: românticos fascinados pela lenda do Rei Arthur, peregrinos à procura da herança da antiga cristandade, místicos em busca do Santo Graal, enquanto astrólogos são seduzidos pelos rumores da existência de um zodíaco na paisagem. Glastonbury não era mais do que uma ilha rodeada de pântanos quando os primeiros cristãos ali se estabeleceram. 



A primeira data digna de menção é de cerca de 750 d.C. quando o Rei Ine fundou ali um mosteiro. Escavações arqueológicas trouxeram à luz restos de primitivas construções feitas de vime e barro, enquanto dos muitos edifícios de pedra construídos ao longo dos séculos restam apenas o contorno.

Avalon, chamada de Avilion por Malory, surgiu pela primeira vez na história de Arthur através de Godofredo de Monmouth. Godofredo juntou uma miscelânea de tradições com relação à sobrevivência de Arthur e ao lugar de refúgio: tanto para britânicos, bretões ou galeses, o lugar é sempre um paraíso cercado de água, localizado na região costeira, que se chamava Avalon.

E disse: 

"O renomado rei Arthur, gravemente ferido, foi levado para a ilha de Avalon, para a cura de suas feridas, onde entregou a coroa da Bretanha a seu parente Constantino, filho de Cador, duque da Cornualha, no ano de 542 do Nosso Senhor". 

Mais tarde, no livro Life of Merlin, Godofredo descreve o lugar como uma ilha fantástica, habitado por nove damas, uma das quais a sua irmã, a fada Morgana.

Grande é a associação de Glastonbury com Avalon. A grande abadia de Glastonbury foi fundada no século V. A seu lado havia uma pequena igreja, muito antiga, de paredes de taipa, que se dizia ser o primeiro santuário construído na Bretanha, e, assim, associado a José de Arimatéia, que teria trazido o Santo Graal para a Bretanha. 



Em 1184, um incêndio destruiu a pequena igreja, bem como a maioria dos prédios da abadia. Um programa de reconstrução foi então iniciado por Henrique II, mas, como demandava somas intensas, era necessário alguma coisa para atrair peregrinos com suas bolsas.

Giraldus Cambrensis, um galês de ascendência parcialmente normanda, produziu então, entre 1193 e 1199, um obra intitulada De Principis Instructione, na qual registra que Arthur teria sido um benfeitor da abadia e que teria sido na verdade enterrado nela, já que seu corpo fora encontrado em 1190. Jazia entre duas pirâmides de pedra que marcavam os locais de outros túmulos, a 5 metros de profundidade, envolvido em um tronco de árvore oco. 

Do lado de baixo do tronco que servia de caixão, havia uma pedra e abaixo dela uma cruz de chumbo na qual estavam gravadas as seguintes palavras em latim: 

"Aqui jaz enterrado o renomado rei Arthur com Guinevere, sua segunda esposa, na ilha de Avalon." 

Dois terços do caixão eram ocupados por um homem de tamanho incomum e o restante por ossos de uma mulher, juntamente com uma trança de cabelos loiros que virou pó ao ser tocada por um monge. A tal descoberta teve o sucesso que interessava e Glastonbury tornou-se uma atração turística.

Godofredo de Monmouth dissera que Arthur fora levado embora, mortalmente ferido, para a ilha de Avalon. A partir do momento que os ossos de Arthur teriam sido encontrados em Glastonbury, junto com a cruz funerária que dizia que ele teria sido enterrado em Avalon, Glastonbury tornou-se sempre Avalon. 

Guilherme de Malmesbury, em sua Gesta Regum Anglorum (Gesta do Rei dos Anglos), de 1125, apenas menciona o fato de os britânicos chamarem Glastonbury de Inis Witrin, a Ilha de Vidro. Caradoc de Lancafarn, em sua Life of Gildas, de 1136, repetiu que os britânicos a chamavam de Ynis Gutrin, Ilha de Vidro. Giraldus Cambrensis e Ralph, abade de Coggeshall, em sua Chronicon Anglicanum (Crônica Anglicana), foram os dois primeiros escritores a dizer que Glastonbury era Avalon.




(Fonte: http://www.knight.hpg.com.br e http://www.asbrumasdeavalon.hpg.com.br)






Apolo e Dafne



Conta a lenda que após o dilúvio, a terra ficou recoberta de lodo, e da fertilidade resultante surgiu uma imensa variedade de coisas, algumas boas e outras más. 
Entre elas surgiu Píton, uma serpente enorme que se refugiou nas cavernas do Monte Parnasso.

O povo estava aterrorizado, e Apolo, vendo o que acontecia, pegou suas armas e resolveu enfrentar o monstro. Até este momento o deus havia matado apenas fracos animais, como lebres, cabras e outros semelhantes. Ele aproximou-se da caverna da serpente e esperou-a sair, abatendo-a com as suas flechas.

O potente senhor do arco certeiro, 
Deus da vida, da luz e da poesia, 
O Sol, em forma humana apresentado, 
Radioso com o triunfo no combate. 
Partiu agora mesmo a seta ultriz. 
Nos olhos, nas narinas, se desenham
O desdém, a altivez própria de um deus.

Foi uma grande vitória e o povo estava novamente aliviado. Para comemorar o feito, Apolo instituiu os Jogos Píticos, nos quais os vencedores nas provas de força, rapidez na corrida ou nas disputas de carro eram coroados com uma grinalda de faia, pois o loureiro não havia ainda sido escolhido pelo deus como sua planta predileta.

Apolo estava envaidecido com o seu recente triunfo, e quando viu Eros brincando com seu poderoso arco e suas flechas, repreendeu-o: 

"Que queres tu, menino, com armas mortíferas? Deixe-as para mãos de quem delas seja digno. Viste a grande vitória que alcancei contra a enorme serpente, cujo corpo venenoso cobria grande extensão da planície. Contenta-te com tua tocha, criança, e atiça tua chama, mas não se atreva a intrometer-se com minhas armas novamente." 

O filho de Afrodite, ouvindo as palavras do deus, retrucou: 

"Tuas setas podem ferir todas as outras coisas, e isso concordo. Mas não esqueça que as minhas também podem ferir-te".

Subiu ao alto de uma rocha do Parnasso e sacou de uma das suas flechas. Mirou no coração de Apolo e desferiu a seta. Neste mesmo instante, o deus foi tomado de amores pela ninfa Dafne, filha do deus-rio Peneu, que costumava passear nos bosques.

Dafne era uma donzela linda, e muitos amantes a buscavam, mas ela recusava a todos, apesar dos pedidos de seu pai: "Filha, é tempo que encontres um esposo e que me dês netos". Mas a simples idéia de casar-se causava horror na jovem.

Um dia estava Apolo passando pelos bosques quando viu Dafne. O deus estava encantado diante de tanta graça, e admirou seus cabelos, seus lábios, seus olhos e todo o seu corpo. Apolo resolveu então tê-la à força e começou a seguir a ninfa.

Porém Dafne, ao sentir a aproximação do deus, pôs-se a correr como o vento, e nem mesmo o deus conseguia alcançá-la. "Pare, linda donzela, não quero fazer-te mal. Quero apenas poder amar-te. Por que foges? Sou um deus e meu pai é o próprio Zeus. Sou senhor de Delfos e Tenedos e conheço todas as coisas, presentes e futuras..."

A ninfa estava surda às súplicas do deus e continuou em sua fuga. Seus cabelos estavam esvoaçantes e o vento agitava suas vestes. Apolo sentia-se mais encantado com Dafne, e passou a correr ainda mais rápido. A donzela sentia que o deus se aproximara muito e que dificilmente conseguiria escapar. 

As forças da jovem começavam a faltar e desesperada rogou ao seu pai, o rio Peneu, que a ajudasse: "Salva-me, meu Pai. O deus está me alcançando e não tenho mais forças para fugir!". O deus-rio estava triste, mas havia prometido ajudar a filha a não se casar, e resolveu intervir. 

Assim, um torpor invadiu os membros da linda ninfa, e toda a sua pele começou a transformar-se numa leve casca, e ela não mais conseguia correr. Seus cabelos se tornaram verdes folhas, seus braços mudaram-se em galhos e os pé cravaram-se no solo, como raízes.

Apolo, vendo a transformação, e sentindo-se impotente, abraçou-se aos ramos da árvore e beijou ardentemente sua madeira. "Já que não podes ser minha esposa, serás minha planta favorita. Usarei tuas folhas como coroa; com elas enfeitarei minha lira e minha aljava. E, tão eternamente jovem quanto eu próprio, também hás de ser sempre verde e tuas folhas não envelhecerão".

O que cantou, porém, com tal paixão, 
Não foi cantado nem sentido em vão. 
Se foi surda a amada ao canto seu, 
O canto aos outros homens comoveu. 
Assim Apolo, deixando a ilusória 
Paixão, no louro pôs a eterna glória.



(Desconheço a autoria)

Aprendendo com os Mitos e Lendas



Aprendendo com os Mitos e Lendas
(Por John Matthews)

Os Xamãs foram os primeiros contadores de estórias, tecendo os mitos que ainda hoje nos emocionam. O melhor modo de se ensinar ainda é através da parábola, um tipo especial de estória. O xamã deve aprender o maior número possível de estórias, lendas, contos apócrifos e mitos. Porém, a mais importante estória a ser aprendida é a sua própria. Não só você deve aprendê-la, como também deve aprender a contá-la, para a mais exigente platéia que existe: você mesmo.

Tudo possui as qualidades do mito. A vida é cheia de alusões míticas, as quais você, como um xamã contador de estórias, deve aprender a cantar. Por esta razão, você deve prosseguir em sua exploração pessoal das infinitas dimensões interiores do universo. Sempre que um xamã ingressa no Outro Mundo, retorna com uma nova estória para contar.

As práticas religiosas convencionais, por mais válidas que sejam, costumem desapontar, pois não atendem ao profundo desejo que os humanos nutrem por mitos. Como diz Alberto Villoldo em seu livro The Four Winds, qualquer sacerdote não passa de um 'zelador de mitos,' enquanto que o xamã penetra nas regiões mais profundas do Outro Mundo e retorna com novos mitos em criação. Ele então os preserva, como os xamãs fazem desde tempos imemoriais.

O grande mitógrafo Joseph Campbell disse, em mais de uma oportunidade, que ele cria que uma mitologia para a nossa era não só era necessária, como estava em formação, apesar de não saber precisar que forma ela teria. Creio que esta pode muito bem ser o mito xamânico, e que, ao resgatar as lendas e os ensinamentos da tradição celta, estaremos começando a construir nossa própria parte nesse mito. O xamanismo atende tão bem às necessidades do mundo justamente por ter como base um conjunto comum de percepções, e porque ele se relaciona de modo preciso com o mundo em que vivemos.

Se assim é, o que nós, Xamãs Celtas, podemos fazer para acrescentar nossas próprias vozes a esta estória em evolução? Devemos aprender algumas das histórias maravilhosas encontradas na ancestral literatura celta. As antigas lendas eram outrora narradas nos salões dos reis celtas. Ao trabalhar com elas, você se aproximará dos espíritos do povo celta, e de seus poetas-xamãs e contadores de estórias. Elas não são inacessíveis, como alguns podem imaginar, e representam o melhor meio de se conectar à tradição das terras celtas. Quando encontrar uma lenda que possua elementos xamânicos (ou que lhe seja interessante), tente memorizá-la.

Isto não é tão difícil quanto se pode imaginar. Não se trata de repetir as mesmas palavras todas as vezes, mas de conhecer os componentes da estória e o modo como eles se encaixam. Depois que compreender isto, você poderá contar as estórias a quem desejar ouvi- las - e certamente todos gostam de uma boa estória!

Com o tempo, você se verá pronto para começar a contar uma outra estória - a sua própria. Toda a sua vida é uma estória, e há muito a se aprender quando, de tempos em tempos, revemos nossas vidas. Tente relatar alguns pequenos episódios em voz alta para você mesmo, como se estivesse repetindo uma anedota num círculo de amigos, à mesa de jantar. Desta vez, porém, não omita nada, como pode se ver tentado a fazer em outras circunstâncias, e procure conscientemente pelos padrões ocultos que formam todas as nossas vidas. Busque as referências importantes a características suas das quais você não se dá conta. Você se surpreenderá com a natureza reveladora das coisas de que você 'se lembrará.'

Deixei um dos ensinamentos mais importantes praticamente para o fim: como recontar a sua própria estória. Os celtas amavam lendas, e possuíam uma classe profissional, os bardos e seanachies, cuja tarefa era memorizar centenas de estórias. Muitas destas se perderam para sempre, apesar de conhecermos os nomes de algumas. Mais importante do que isso, porém, é aprender a contar sua lenda em todos os dias de sua vida. Qual é a sua estória? Que tipo de pessoa ela faz de você? Você é um guerreiro, um curandeiro, um músico, um viajante? Estes são apenas alguns dos papéis que você pode desempenhar - talvez diversos durante sua vida. Você deve perguntar a si mesmo em que tipo de lenda você vive, e então poderá começar a contá-la, a princípio somente para você, talvez. Você pode escrevê-la, e lê-la novamente após algumas semanas. Veja, então, se consegue identificar os padrões que se ocultam sob a superfície.

O ato de contar estórias é uma forma de ensino usada desde os primórdios dos tempos. As parábolas de Cristo e dos monges celtas eram estórias que nos ensinavam a viver. Entre os nativos da América do Norte, os Aborígenes da Austrália e os cantores Sami da Lapônia, por exemplo, existem repertórios virtualmente infinitos de lendas que narram a recriação e a perpetuação do sagrado, e a relação das pessoas com este último. As antigas estórias e canções tradicionais recitadas pelos bardos celtas visavam a, simultaneamente, entreter e instruir. As estórias e lendas dos celtas nos falam do Outro Mundo, deste mundo, de nós mesmos. Convém aprender ao menos algumas de cor; não importa se as palavras não são sempre as mesmas, desde que os elementos da estória estejam firmemente enraizados em você. Assim, você poderá contá-las a qualquer um que deseje ouvi-las, e você poderá se surpreender com a quantidade de pessoas interessadas. Tente contá-las a seus filhos; venho contando estórias mágicas a meu filho desde que ele era crescido o bastante para compreender minhas palavras. Por vezes, ele as entende melhor do que eu!

Assim, ouça as antigas estórias, e você verá o quanto aprenderá. Muitos dos antigos ensinamentos estão contidos nessas lendas, apenas aguardando para serem retirados e praticados. Depois de um certo tempo, você verá que novas estórias surgirão a você, talvez contendo elementos das antigas lendas que se revelam de outras formas. Escreva- as, e tente decorá-las. Se você é capaz de memorizá-las sem precisar escrever, tanto melhor, pois assim elas serão realmente uma parte de você.

(Texto de John Matthews)